Nota de Campo nº 005 – A saída da creche
Observações da Ordem
A saída da creche
Quando um simples reencontro revela a ordem que sustenta a vida em sociedade.
Ao final da tarde, fui buscar minha filha na creche. O trajeto era curto e absolutamente comum. Caminhava pela calçada enquanto a cidade atravessava um daqueles momentos em que tudo parece acontecer ao mesmo tempo. Carros ocupavam lentamente as ruas, pais e mães chegavam apressados, crianças deixavam as salas de aula, professores encerravam mais um dia de trabalho e dezenas de pequenas histórias se cruzavam naquele mesmo espaço durante poucos minutos. Nada ali chamava a atenção. Ao contrário, a cena transmitia exatamente a sensação que costumamos chamar de normalidade.
Quando minha filha atravessou o portão e segurou minha mão, toda aquela movimentação pareceu desaparecer. Restava apenas a alegria silenciosa de um reencontro que se repete quase todos os dias e que, justamente por isso, raramente desperta qualquer reflexão. No entanto, enquanto caminhávamos de volta para casa, tornou-se impossível ignorar uma pergunta que até então jamais havia me ocorrido: quantas coisas precisaram permanecer coordenadas para que aquele momento pudesse acontecer exatamente daquela maneira?
Percebi que a tranquilidade daquele abraço não começava na porta da escola. Ela havia começado muito antes. Dependia das ruas por onde caminhávamos, da organização do trânsito, da confiança depositada na instituição que havia cuidado das crianças durante todo o dia, do trabalho de professores, funcionários, servidores públicos e de inúmeras outras pessoas que jamais conheceríamos. Dependia também de algo ainda mais discreto: da forma como cada indivíduo, ao cumprir silenciosamente sua própria responsabilidade, contribuía para que todos os demais pudessem cumprir as suas.
Talvez seja justamente nesse ponto que a ordem revele sua natureza mais profunda. Costumamos imaginá-la como algo pertencente às grandes instituições ou às estruturas do Estado, quando, na verdade, ela também se manifesta nas relações mais simples da vida cotidiana. Um motorista reduzindo a velocidade diante de uma escola, um pedestre aguardando o momento seguro para atravessar, um professor acolhendo uma criança, um pai chegando no horário combinado, alguém oferecendo passagem, outro respeitando o espaço comum. Nenhuma dessas atitudes parece extraordinária quando observada isoladamente. Entretanto, quando milhares delas passam a ocorrer continuamente, produzem algo muito maior do que a soma de seus gestos: produzem confiança.
É essa confiança que permite aos pais deixarem, todas as manhãs, aquilo que possuem de mais precioso aos cuidados de outras pessoas e retornarem, ao final do dia, com a serenidade de quem espera encontrar tudo exatamente como deixou. Poucos param para pensar que essa tranquilidade não nasce do acaso. Ela resulta de uma ordem continuamente construída pelas relações que ligam pessoas, instituições e responsabilidades em uma mesma arquitetura de convivência.
Talvez seja esse um dos aspectos mais silenciosos da vida em sociedade. Aquilo que possui maior valor para nós costuma depender precisamente das estruturas que menos percebemos. E talvez a maior fragilidade da ordem não esteja apenas na possibilidade de sua ruptura, mas no fato de deixarmos de reconhecê-la enquanto ela ainda está sendo construída, preservada e renovada por milhões de pessoas, todos os dias.
A ordem não acontece. Ela é continuamente construída e sustentada pelas relações que estabelecemos todos os dias. Quanto mais sólida ela se torna, mais naturalmente passamos a chamá-la de normalidade.
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