ARQUITETOS DA ORDEM
007 — NIKLAS LUHMANN (1927–1998)
A ordem diante da complexidade
Niklas Luhmann ocupa uma posição singular na teoria social contemporânea porque sua obra permite deslocar a observação da ordem para um ponto em que ela se torna particularmente difícil de perceber: o funcionamento simultâneo de estruturas diferentes, especializadas e interdependentes que compõem uma sociedade complexa. Sua contribuição não consiste em formular uma teoria da ordem propriamente dita, nem deve ser incorporada à Arquitetura da Ordem como se sua teoria dos sistemas pudesse substituir o nosso próprio objeto científico. Sua importância está em oferecer instrumentos para compreender uma questão que se torna inevitável à medida que avançamos na construção da Teoria Geral da Ordem: como uma sociedade consegue continuar funcionando quando sua complexidade ultrapassa em muito a capacidade de qualquer indivíduo, instituição ou centro de poder de conhecê-la e controlá-la integralmente? Em Soziale Systeme, publicada originalmente em 1984 e posteriormente traduzida para o inglês como Social Systems, Luhmann apresenta uma teoria geral na qual sistema, ambiente, sentido, complexidade, comunicação, contingência, estrutura e diferenciação passam a ser tratados como elementos de uma mesma arquitetura explicativa. A obra representa uma mudança importante em relação às teorias sociais centradas exclusivamente na ação individual, porque desloca a atenção para as operações pelas quais os sistemas sociais se constituem e conseguem continuar existindo.
A entrada de Luhmann na sequência dos Arquitetos da Ordem não é, portanto, uma mudança arbitrária de autor, mas uma consequência da própria trajetória construída até aqui. Jane Jacobs permitiu observar a ordem nas relações cotidianas; Elinor Ostrom mostrou que grupos podem produzir regras e mecanismos de cooperação; Christopher Alexander revelou a importância dos padrões na configuração de sistemas vivos; Friedrich Hayek demonstrou que ordens complexas podem emergir sem planejamento central; Berger e Luckmann explicaram como práticas recorrentes se institucionalizam e passam a constituir uma realidade social compartilhada; Douglass North mostrou como instituições, incentivos e trajetórias históricas condicionam a evolução das sociedades. Com Luhmann, a investigação precisa avançar para outra escala: não basta compreender como uma determinada estrutura produz ordem; é necessário compreender como múltiplas estruturas, com funções diferentes, conseguem continuar operando simultaneamente e relacionando-se em uma realidade cuja complexidade nenhuma delas consegue abarcar integralmente. É nessa passagem que Luhmann se torna imprescindível.
O problema da complexidade
A questão da complexidade está no centro dessa contribuição. A realidade contém uma quantidade de possibilidades muito superior àquilo que qualquer sistema pode processar simultaneamente. Para existir e operar, portanto, um sistema precisa selecionar. Ele não pode responder a tudo, observar tudo, decidir sobre tudo ou considerar todas as possibilidades existentes ao mesmo tempo. Precisa estabelecer diferenças, produzir relevâncias e reduzir o campo de possibilidades que será efetivamente processado. Luhmann não trata essa redução como uma imperfeição ocasional, mas como uma condição estrutural da própria possibilidade de funcionamento. A complexidade não desaparece porque uma estrutura foi criada; ela permanece no ambiente e precisa ser continuamente processada por meio de seleções. A ordem passa, assim, a adquirir uma dimensão que é particularmente importante para nossa investigação: ordenar é também selecionar. Toda estrutura estabelece alguma forma de distinção entre aquilo que, naquele momento, será considerado relevante e aquilo que permanecerá fora de sua operação.
Essa perspectiva permite compreender por que estruturas aparentemente estáveis podem funcionar em ambientes extremamente complexos. Um hospital não precisa compreender toda a realidade social para atender um paciente; precisa produzir distinções que transformem uma realidade excessivamente ampla em algo clinicamente processável. O sistema jurídico não precisa compreender integralmente uma vida humana para decidir uma questão; precisa converter determinada realidade em categorias juridicamente relevantes. Uma organização policial não consegue processar simultaneamente todas as circunstâncias existentes em seu território; precisa selecionar ocorrências, prioridades, informações, riscos e respostas. Uma empresa não pode considerar todas as possibilidades existentes no mercado; precisa selecionar oportunidades, riscos, recursos, estratégias e decisões. A ordem, nesses casos, não consiste em eliminar a complexidade, mas em criar condições para que alguma parte dela possa ser processada sem que o sistema seja paralisado pela totalidade das possibilidades existentes.
É justamente por isso que a estabilidade não deve ser confundida com simplicidade. Uma sociedade pode ser altamente complexa e, ainda assim, apresentar elevados níveis de previsibilidade em determinadas áreas. O que torna isso possível não é a redução da sociedade a poucas regras, mas a existência de estruturas que selecionam, estabilizam expectativas e tornam determinadas operações repetíveis. A complexidade permanece; aquilo que muda é a capacidade de processá-la.
A ordem não elimina a complexidade; ela cria formas de processá-la.
Essa formulação é especialmente importante para a Arquitetura da Ordem porque impede uma interpretação excessivamente estática do nosso objeto. A ordem não é o oposto absoluto da complexidade. Em muitos casos, ela é precisamente a capacidade de produzir alguma estabilidade dentro da complexidade.
Sistema e ambiente
Para compreender esse processo, Luhmann estabelece uma distinção fundamental entre sistema e ambiente. Um sistema não é simplesmente uma parte isolada do mundo, mas uma realidade que se constitui por meio da diferença que estabelece em relação àquilo que não é ele. Seu ambiente contém possibilidades que excedem sua capacidade de processamento. O sistema, portanto, não pode incorporar o ambiente em sua totalidade; precisa estabelecer uma fronteira operacional e trabalhar a partir dela. Essa distinção não significa isolamento. Pelo contrário, um sistema existe em relação permanente com aquilo que constitui seu ambiente, mas não pode simplesmente importar o ambiente para dentro de si sem submetê-lo às próprias formas de operação.
Essa ideia oferece uma chave importante para compreender por que diferentes estruturas podem observar o mesmo acontecimento de maneiras tão distintas. Uma mesma ocorrência pode constituir um problema de segurança para a polícia, um problema jurídico para o direito, uma emergência para o sistema de saúde, uma questão administrativa para o governo, uma notícia para os meios de comunicação e uma experiência familiar para aqueles diretamente envolvidos. O acontecimento é o mesmo, mas não é processado da mesma maneira. Cada estrutura estabelece suas próprias distinções e, a partir delas, constrói aquilo que será relevante para sua operação.
Isso significa que a realidade social não possui apenas acontecimentos; possui também formas diferentes de observá-los.
Essa percepção aproxima Luhmann de uma das questões fundamentais da Arquitetura da Ordem: aquilo que observamos não corresponde necessariamente à totalidade da estrutura que está funcionando diante de nós. Quando vemos uma ambulância atravessar rapidamente uma avenida, por exemplo, percebemos um veículo em movimento. Mas por trás daquele deslocamento existe uma cadeia de comunicações, decisões, infraestrutura, protocolos, profissionais, recursos, normas e expectativas que raramente aparecem no campo imediato da percepção. O acontecimento visível é apenas a superfície de uma arquitetura operacional muito maior.
A ordem como reprodução
Luhmann acrescenta outro elemento decisivo ao deslocar a atenção da estrutura que existe para as operações que precisam continuar acontecendo para que ela permaneça existindo. É nesse contexto que aparece o conceito de autopoiese, originalmente formulado na biologia por Humberto Maturana e Francisco Varela e posteriormente incorporado por Luhmann à teoria dos sistemas sociais. Em sua formulação, os sistemas produzem e reproduzem continuamente os elementos de suas próprias operações; nos sistemas sociais, esses elementos são comunicações.
Essa ideia altera profundamente a maneira de compreender a estabilidade. Uma instituição não permanece porque foi criada uma vez. Uma organização não funciona apenas porque possui uma estrutura formal. Uma sociedade não continua existindo porque em algum momento estabeleceu suas regras fundamentais. Todas essas estruturas precisam, de alguma maneira, reproduzir continuamente as operações que as constituem. Decisões precisam continuar sendo tomadas, comunicações precisam continuar ocorrendo, procedimentos precisam continuar sendo reconhecidos, expectativas precisam continuar sendo atualizadas e relações precisam continuar sendo processadas.
O que chamamos de estabilidade pode ser, portanto, o resultado de uma enorme quantidade de movimentos que não percebemos.
Uma escola funcionando pela manhã parece uma situação banal. Mas, para que aquela normalidade exista, professores precisam comparecer, alunos precisam chegar, horários precisam ser respeitados, informações precisam circular, recursos precisam estar disponíveis, decisões precisam ser tomadas, regras precisam ser reconhecidas e inúmeras relações precisam continuar funcionando. A aparência de simplicidade é produzida por uma estrutura que, internamente, está em permanente atividade.
É nesse sentido que Luhmann ajuda a aprofundar uma ideia já presente na Arquitetura da Ordem:
aquilo que permanece pode estar sendo continuamente produzido.
Comunicação
A comunicação ocupa posição central nessa arquitetura porque, para Luhmann, ela constitui a operação básica dos sistemas sociais. Essa formulação exige cuidado, pois não significa simplesmente que pessoas trocam informações. O conceito luhmanniano de comunicação é mais complexo: ela resulta da articulação entre informação, emissão e compreensão, e não deve ser reduzida ao modelo linear de alguém que transmite uma mensagem para outro que simplesmente a recebe. A comunicação é aquilo que permite que uma operação social produza outra operação social, estabelecendo a continuidade necessária à reprodução do sistema.
A consequência é importante. Pessoas pensam, percebem e agem, mas a comunicação possui uma dinâmica que ultrapassa qualquer indivíduo isoladamente considerado. Uma instituição continua comunicando mesmo quando seus integrantes mudam. Um procedimento administrativo continua existindo depois que o servidor que o executava é substituído. Uma decisão jurídica continua produzindo efeitos depois que o juiz que a proferiu deixa a função. A continuidade da estrutura depende da possibilidade de novas comunicações retomarem, modificarem ou substituírem comunicações anteriores.
Isso ajuda a explicar uma característica essencial da ordem: ela precisa ser comunicável para ser reproduzível.
Regras que ninguém conhece, procedimentos que ninguém compreende, decisões que não podem ser transmitidas ou expectativas que não conseguem circular dificilmente produzem estabilidade duradoura. A comunicação, nesse sentido, não é apenas um instrumento utilizado pela ordem. Ela é uma das condições de sua reprodução.
Expectativas e dupla contingência
Mas a comunicação não elimina a incerteza. Cada indivíduo ou sistema permanece incapaz de conhecer integralmente o que o outro fará. É nesse ponto que Luhmann desenvolve o problema da dupla contingência: quando dois participantes entram em uma relação, ambos sabem que o outro poderia agir de diferentes maneiras e que suas próprias decisões também permanecem abertas. Nenhum possui acesso absoluto à consciência do outro. A convivência precisa, portanto, construir mecanismos que permitam lidar com essa incerteza.
A solução não está em eliminar a contingência, mas em desenvolver expectativas.
Quando atravessamos uma rua, não conhecemos os motoristas que se aproximam. Quando entramos em um hospital, não conhecemos todas as pessoas que ali trabalham. Quando entregamos um documento a uma instituição pública, não conhecemos todos os processos internos pelos quais ele passará. Ainda assim, agimos porque possuímos expectativas relativamente estabilizadas sobre como essas estruturas funcionam.
A convivência cotidiana depende dessa condição muito mais do que normalmente percebemos.
A ordem não exige que saibamos exatamente o que o outro fará. Exige que existam referências suficientes para orientar nossa ação diante da possibilidade de que o outro possa agir de diversas maneiras.
Por isso, quando uma expectativa é rompida, muitas vezes percebemos a estrutura justamente porque ela deixou de funcionar como esperávamos.
A ordem aparece com maior nitidez quando aquilo que deveria acontecer deixa de acontecer.
Diferenciação funcional
Uma das maiores contribuições de Luhmann está em sua interpretação da sociedade moderna como funcionalmente diferenciada. A modernidade não teria produzido simplesmente uma sociedade maior e mais complexa, mas uma sociedade na qual diferentes sistemas passaram a desempenhar funções específicas e a desenvolver formas próprias de operação. Economia, política, direito, ciência, educação, religião, saúde, comunicação e outros campos sociais não podem ser reduzidos a uma única racionalidade. Cada sistema observa e processa a realidade segundo referências próprias.
Essa diferenciação é decisiva para a Arquitetura da Ordem porque demonstra que a ordem de uma sociedade complexa não depende necessariamente de uma autoridade central capaz de coordenar tudo. A própria diferenciação cria múltiplos centros de processamento da realidade. A economia observa determinadas possibilidades; a política observa outras; o direito estabelece suas próprias distinções; a ciência produz conhecimento segundo critérios específicos; a educação opera a partir de outras referências.
A sociedade não possui, portanto, uma única lente.
Possui muitas.
E a complexidade da vida social surge também da relação entre essas diferentes formas de observar e operar.
Isso permite compreender por que uma mesma decisão pode produzir consequências completamente diferentes em diferentes sistemas. Uma política pública pode ser politicamente necessária, economicamente custosa, juridicamente limitada e cientificamente controversa. Uma inovação tecnológica pode ser economicamente promissora, juridicamente problemática, cientificamente relevante e socialmente transformadora.
Não existe necessariamente uma única resposta capaz de satisfazer simultaneamente todas essas racionalidades.
A ordem de uma sociedade complexa precisa, em grande medida, conviver com essa diferenciação.
Acoplamento estrutural
Se os sistemas possuem operações próprias, surge uma pergunta inevitável: como conseguem relacionar-se?
Luhmann responde por meio da ideia de acoplamento estrutural. Sistemas diferentes permanecem operacionalmente distintos, mas desenvolvem relações estáveis que permitem que acontecimentos em um sistema produzam condições relevantes para operações em outro. Eles não simplesmente transferem suas operações uns para os outros; cada sistema processa aquilo que recebe segundo suas próprias estruturas.
Essa ideia é particularmente útil para compreender a ordem pública.
Uma ocorrência policial pode provocar uma decisão administrativa, uma atuação judicial, uma intervenção de saúde, uma repercussão política e uma reação comunitária. Nenhum desses sistemas absorve completamente os demais. Eles continuam operando segundo suas próprias referências, mas estão estruturalmente relacionados.
É justamente nessa interdependência que aparece uma dimensão importante da arquitetura da ordem: coordenação não significa uniformidade.
Sistemas diferentes podem cooperar sem se tornarem iguais.
Podem depender uns dos outros sem perder completamente sua autonomia.
Podem produzir efeitos recíprocos sem compartilhar a mesma finalidade.
A ordem de uma sociedade complexa depende, portanto, não apenas da organização interna de cada estrutura, mas também da qualidade das relações que estabelecem entre si.
Observação e segunda ordem
Luhmann torna-se ainda mais relevante para a Arquitetura da Ordem quando introduz a questão da observação. Observar não significa simplesmente registrar uma realidade que já está pronta diante do observador. Todo observador precisa estabelecer distinções. Para observar alguma coisa, precisa distingui-la de outra. Por isso, diferentes observadores podem construir descrições diferentes do mesmo acontecimento sem que necessariamente um deles esteja simplesmente “vendo a realidade” e o outro “errando”. Cada um observa a partir das distinções disponíveis em sua própria posição.
A observação de segunda ordem acrescenta uma camada: observar como outro observador observa.
Essa possibilidade possui enorme importância para nosso método. A pergunta deixa de ser apenas o que aconteceu? e passa a incluir como isso foi percebido, que distinções permitiram percebê-lo e o que permaneceu invisível a partir daquela forma de observação?
É exatamente aqui que Luhmann encontra a lógica das Notas de Campo.
Quando observamos uma pequena atitude cotidiana, não estamos apenas registrando um comportamento. Estamos procurando aquilo que normalmente não aparece na percepção imediata. Uma pessoa que recolhe um objeto deixado na calçada, alguém que segura uma porta para outra pessoa, uma fila que se organiza sem comando, uma empresa que mantém milhares de pessoas conectadas a uma cadeia produtiva: o acontecimento visível é simples; a estrutura que ele revela pode ser extraordinariamente complexa.
A observação torna-se, então, uma ferramenta para atravessar a superfície.
Luhmann e os níveis da ordem
É importante não cometer aqui um erro metodológico. Os seis níveis definidos pela Arquitetura da Ordem — individual, familiar, comunitário/social, institucional, pública e civilizacional — não são categorias formuladas por Luhmann. Eles pertencem à arquitetura conceitual própria do projeto.
Sua contribuição é outra.
Luhmann oferece instrumentos para observar como diferentes níveis podem estar simultaneamente envolvidos em uma mesma situação e como sistemas distintos podem atravessar esses níveis. Uma decisão individual pode afetar uma família; uma dinâmica familiar pode produzir efeitos comunitários; práticas comunitárias podem relacionar-se com instituições; instituições podem interferir na ordem pública; estruturas públicas podem participar de processos civilizacionais mais amplos.
Os níveis, portanto, não devem ser imaginados como compartimentos herméticos.
Eles representam campos de manifestação da ordem.
Os sistemas e padrões, por sua vez, ajudam a compreender como essa ordem é produzida, mantida ou transformada dentro desses campos.
Essa distinção será importante para o desenvolvimento posterior da Teoria Geral da Ordem.
Luhmann e os padrões da ordem
A mesma lógica permite compreender melhor a função dos padrões que estamos identificando.
Comunicação, coordenação, cooperação, reciprocidade, confiança, aprendizagem, adaptação, legitimidade e outros padrões podem aparecer em diferentes níveis e assumir diferentes formas conforme o sistema no qual se manifestam.
A cooperação em uma família não é idêntica à cooperação entre instituições.
A comunicação entre dois indivíduos não é equivalente à comunicação entre organizações.
A coordenação de uma comunidade não possui a mesma estrutura da coordenação entre órgãos públicos.
Mas existe algo transversal.
Há mecanismos recorrentes pelos quais relações conseguem produzir algum grau de previsibilidade, continuidade e integração.
Luhmann ajuda justamente a perceber que esses mecanismos não devem ser procurados apenas no comportamento individual. Eles podem estar incorporados às próprias estruturas comunicativas e operacionais dos sistemas.
Isso fortalece uma distinção que considero central para o projeto:
os níveis da ordem indicam onde a ordem se manifesta; os padrões da ordem ajudam a compreender como ela se produz e se sustenta.
Luhmann não formulou essa distinção. Mas sua teoria oferece instrumentos importantes para investigá-la.
A ordem não é o mesmo que funcionamento
É também aqui que precisamos estabelecer o limite de Luhmann.
Um sistema pode funcionar.
Pode reproduzir suas operações.
Pode ser extremamente estável.
E ainda assim produzir efeitos que consideramos injustos, destrutivos ou indesejáveis.
Portanto:
funcionamento não é sinônimo de legitimidade.
Essa distinção é indispensável.
A Arquitetura da Ordem não pode simplesmente concluir que tudo aquilo que se reproduz constitui uma boa ordem. Se assim fosse, qualquer estrutura capaz de perpetuar-se seria considerada desejável.
Não é isso que estamos investigando.
A questão científica é compreender como a ordem se estrutura, como se reproduz, como se transforma e quais condições permitem sua continuidade. A avaliação normativa de determinadas formas de ordem exige outras categorias e outros autores.
Luhmann, portanto, fornece sobretudo uma extraordinária capacidade de descrição e análise da complexidade social.
Ele nos ajuda a enxergar como funciona.
Não nos autoriza, sozinho, a concluir como deveria funcionar.
Convergência com os arquitetos anteriores
A força de um arquiteto dentro desta série não está em repetir os anteriores, mas em acrescentar uma camada que ainda não estava suficientemente explicada.
Jacobs mostrou que a ordem pode ser percebida no cotidiano e que a vida urbana depende de uma multiplicidade de interações aparentemente banais. Ostrom demonstrou que comunidades podem produzir mecanismos de coordenação e governança dos recursos comuns. Alexander revelou que determinadas configurações e padrões favorecem a vitalidade dos sistemas. Hayek mostrou que a ordem pode emergir da coordenação descentralizada de conhecimentos dispersos. Berger e Luckmann explicaram como hábitos e práticas se institucionalizam e passam a constituir realidades socialmente objetivadas. North mostrou como instituições estruturam incentivos e trajetórias históricas.
Luhmann não substitui nenhuma dessas contribuições.
Ele amplia o campo.
Ele permite observar que essas diferentes formas de ordem não existem isoladamente. Elas participam de uma sociedade na qual múltiplos sistemas produzem continuamente comunicações, decisões, expectativas e diferenciações.
Sua contribuição, portanto, não está simplesmente em explicar mais um mecanismo da ordem.
Está em mostrar que a própria sociedade precisa ser observada como uma arquitetura de sistemas interdependentes, na qual a continuidade de um depende, em diferentes graus, da capacidade de estabelecer relações com aquilo que constitui seu ambiente.
O limite e a contribuição para a Teoria Geral da Ordem
Luhmann torna possível formular uma hipótese que amplia significativamente nosso objeto:
Em sociedades complexas, a ordem depende da capacidade de diferentes estruturas produzirem seleções, estabilizarem expectativas, reproduzirem suas próprias operações e estabelecerem relações suficientemente estáveis com outros sistemas e com seus ambientes.
Essa proposição não encerra a questão.
Ao contrário, abre uma nova frente de investigação.
Se a ordem depende de reprodução, precisamos compreender o que interrompe essa reprodução.
Se depende de expectativas, precisamos compreender como elas se formam e como entram em colapso.
Se depende de comunicação, precisamos compreender como ruídos, conflitos e distorções interferem em sua continuidade.
Se depende de diferenciação, precisamos compreender quando a diferenciação favorece a complexidade funcional e quando produz fragmentação.
Se depende de relações entre sistemas, precisamos compreender como surgem falhas de coordenação.
Se depende de seleção, precisamos compreender quais possibilidades são sistematicamente incluídas e quais permanecem invisíveis.
É nesse ponto que Luhmann deixa de ser apenas um autor estudado e passa a funcionar como instrumento de investigação.
A contribuição de Luhmann para a Arquitetura da Ordem
A incorporação de Niklas Luhmann acrescenta à construção da Teoria Geral da Ordem uma dimensão que ainda não estava suficientemente desenvolvida: a ordem como capacidade de processamento e reprodução em condições de complexidade.
A partir dele, podemos compreender que uma sociedade não permanece funcionando porque alguém controla todas as suas partes, nem porque todos os seus membros compartilham as mesmas intenções. Ela permanece porque inúmeras estruturas produzem continuamente comunicações, expectativas, decisões, regras, distinções e relações que tornam possível alguma continuidade.
O funcionamento cotidiano, portanto, é menos simples do que parece.
Uma cidade funcionando pela manhã é o resultado de milhares de sistemas operando simultaneamente.
Uma empresa produzindo não é apenas uma empresa: envolve capital, trabalho, conhecimento, fornecedores, consumidores, legislação, infraestrutura, tecnologia e comunicação.
Um hospital atendendo um paciente depende de uma extensa arquitetura institucional, profissional, tecnológica, econômica e normativa.
Uma ocorrência policial pode mobilizar simultaneamente segurança, saúde, direito, administração, comunidade e comunicação.
A aparência de normalidade é produzida por uma complexidade que raramente observamos em sua totalidade.
E é exatamente aqui que Luhmann se encontra com o propósito fundamental da Arquitetura da Ordem:
tornar perceptíveis as estruturas que sustentam aquilo que normalmente percebemos apenas como funcionamento.
Síntese
Luhmann não nos oferece uma definição final da ordem.
Oferece algo talvez mais útil para esta etapa da investigação: uma maneira de observar por que a ordem precisa ser continuamente produzida em um mundo que nunca deixa de ser complexo.
A ordem deixa de ser compreendida apenas como estabilidade e passa a ser observada também como seleção, diferenciação, comunicação, expectativa, reprodução e relação.
Ela não está necessariamente concentrada em um centro.
Pode estar distribuída entre múltiplas estruturas.
Não depende necessariamente da ausência de conflito.
Pode existir enquanto conflitos são processados.
Não elimina a complexidade.
Cria mecanismos para lidar com ela.
Não é simplesmente aquilo que permanece.
É também aquilo que precisa continuar sendo produzido para que alguma coisa permaneça.
Essa é a contribuição de Niklas Luhmann para a Arquitetura da Ordem.
E talvez sua formulação mais importante para o nosso projeto seja justamente esta:
Aquilo que parece funcionar naturalmente pode ser o resultado de inúmeras operações que precisam continuar acontecendo para que o funcionamento continue parecendo natural.
Referências fundamentais
LUHMANN, Niklas. Social systems. Stanford: Stanford University Press, 1995. 627 p. A edição inglesa apresenta, entre outros, os capítulos Meaning, Double Contingency, Communication and Action, The Individuality of Psychic Systems, Structure and Time, Society and Interaction e Consequences for Epistemology.
LUHMANN, Niklas. Introduction to systems theory. Cambridge: Polity Press, 2012. A obra sistematiza conceitos como sistema, diferença sistema/ambiente, fechamento operacional, autopoiese, acoplamento estrutural, observação, re-entry, complexidade e racionalidade.
LUHMANN, Niklas. Theories of distinction: redescribing the descriptions of modernity. Stanford: Stanford University Press, 2002.
NEVES, Clarissa Eckert Baeta; SAMIOS, Eva Machado Barbosa (org.). Niklas Luhmann: a nova teoria dos sistemas. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1997.
RODRIGUES, Leo Peixoto; NEVES, Fabrício Monteiro. Niklas Luhmann: a sociedade como sistema. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2017.

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