O Elevador
A confiança silenciosa nas estruturas invisíveis da ordem
Naquela manhã, saí de casa um pouco mais cedo do que o habitual. Fechei a porta do apartamento, percorri o corredor e, diante do elevador, pressionei o botão de chamada. Poucos segundos depois, as portas se abriram. Entrei, selecionei o térreo e permaneci em silêncio enquanto a cabine iniciava a descida. Foi um deslocamento breve, absolutamente comum, semelhante a tantos outros que realizamos ao longo da vida sem lhes atribuir qualquer significado. Talvez justamente por isso ele mereça ser observado.
Em nenhum momento questionei se o elevador suportaria meu peso, se seus cabos haviam sido inspecionados, se os freios funcionariam corretamente ou se a manutenção estava em dia. Não conheço quem o projetou, desconheço quem fabricou seus componentes e jamais acompanhei qualquer procedimento técnico relacionado ao seu funcionamento. Ainda assim, entrei sem hesitação. O gesto foi tão espontâneo que sequer percebi que, antes de confiar no equipamento, eu já havia depositado confiança em algo muito maior do que ele.
Naquele instante tornou-se evidente que a confiança cotidiana raramente repousa sobre objetos isolados. Ela repousa sobre sistemas. O elevador constitui apenas a expressão visível de uma extensa rede de conhecimentos técnicos, normas, instituições, responsabilidades e cooperação acumuladas ao longo do tempo. Engenheiros, fabricantes, eletricistas, empresas de manutenção, administradores, órgãos fiscalizadores e o fornecimento contínuo de energia integram uma arquitetura complexa que permanece praticamente invisível para quem apenas aperta um botão. A simplicidade do gesto é proporcional à complexidade da estrutura que o sustenta.
Essa talvez seja uma das manifestações mais sofisticadas da ordem. Ela reduz a incerteza sem chamar atenção para si mesma. Quanto mais eficiente é sua atuação, menor é a necessidade de percebê-la. A previsibilidade substitui a preocupação; a confiança substitui a vigilância constante; a rotina ocupa o lugar da dúvida. A ordem alcança seu grau mais elevado precisamente quando permite que a vida prossiga sem exigir de nós um esforço permanente para verificar aquilo que torna possível sua continuidade.
Basta imaginar, entretanto, que essa cadeia silenciosa deixe de funcionar. Uma inspeção deixa de ser realizada, a manutenção é negligenciada, normas deixam de ser observadas ou responsabilidades deixam de ser assumidas. O elevador continua aparentemente o mesmo, mas a confiança que o cercava desaparece imediatamente. Percebemos, então, que aquilo que parecia depender apenas de uma máquina sempre dependeu, na verdade, da integridade de todo um sistema de relações que a sustentava. A falha visível costuma ser apenas a manifestação final de uma desordem que começou muito antes, de forma quase imperceptível.
Quanto mais observo acontecimentos cotidianos, mais me convenço de que a ordem raramente se revela por grandes acontecimentos. Ela se manifesta na continuidade silenciosa de milhares de pequenas funções que tornam a vida social previsível. O elevador é apenas uma delas. A mesma lógica sustenta hospitais, escolas, sistemas de abastecimento, redes de comunicação, instituições públicas, mercados e cidades inteiras. Em todos esses casos, a estabilidade que experimentamos diariamente não resulta da ausência de riscos, mas da presença contínua de estruturas que trabalham para reduzi-los.
Talvez por isso a normalidade produza uma curiosa ilusão. Passamos a acreditar que aquilo que se repete naturalmente pertence à própria natureza das coisas, quando, na realidade, constitui o resultado de um esforço permanente de coordenação, conhecimento e responsabilidade. O cotidiano não é a ausência de complexidade; é a forma mais bem-sucedida de administrá-la. Quanto mais estável parece a vida coletiva, maior costuma ser o conjunto de estruturas invisíveis que silenciosamente a sustenta.
Naquela manhã, o elevador apenas cumpriu sua função. Eu cheguei ao térreo e segui meu caminho sem qualquer dificuldade. Nada aconteceu. E talvez seja precisamente esse o aspecto mais extraordinário da ordem. Seu maior êxito consiste em fazer com que milhões de acontecimentos indispensáveis ocorram diariamente sem que quase ninguém perceba que aconteceram.
A ordem sempre esteve diante dos nossos olhos. O que muda é a nossa capacidade de observá-la.
